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Vini Kran

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Capítulo 05

O Ritual

Winnipeg - 15 de Maio, 1998. 3:41AM

D,

Estou escrevendo logo após acordar, como venho fazendo desde que tudo começou, enquanto a memória ainda se mantém clara o suficiente para não se dissolver ao longo das próximas horas. Desta vez houve uma mudança importante no que aconteceu, algo que não havia ocorrido antes, e que ainda estou tentando processar enquanto escrevo.

Ela me tirou da paralisia. Não foi gradual, nem como o tranco de sempre. Foi direto. Senti a mão dela segurando meu braço com firmeza e me puxando, como se estivesse me arrancando de dentro do próprio corpo, como alguém puxa outro de uma areia movediça. Não houve dor, mas houve resistência, como se algo não quisesse permitir aquilo. Ainda assim, em um instante, eu estava de pé no quarto.

E então vi. Meu corpo continuava deitado na cama. Imóvel. Dormindo.

Por um momento, fiquei tentando entender o que estava vendo, mas não havia dúvida. Eu estava ali, em pé, consciente, e ao mesmo tempo deitado, respirando de forma pesada, completamente alheio. Foi a primeira vez que tive a sensação clara de estar fora do próprio corpo, não como ideia, mas como constatação direta. Olhei para mim mesmo por alguns segundos, tentando encontrar alguma explicação, mas antes que pudesse reagir, tudo mudou. Fomos transportados.

Não houve deslocamento no sentido comum, apenas uma substituição completa do ambiente. O quarto desapareceu e, no lugar dele, eu estava à beira de um córrego. Havia um poço natural logo adiante, alimentado por uma pequena cachoeira que caía entre rochas. O som da água era constante e preenchia o espaço de forma calma, quase hipnótica. O chão era uma pequena faixa de areia entre árvores densas e pedras grandes, algumas inclinadas sobre o curso do rio. Era noite. A única iluminação vinha da lua cheia, com uma luz azulada fraca, e logo depois, de uma fonte mais quente.

Charlotte surgiu da mata. Ela carregava uma tocha improvisada, feita com um galho e algo que parecia um ninho seco, que queimava de forma irregular na ponta. Sem dizer nada, ela se aproximou de uma pilha de galhos retorcidos e soltou a tocha sobre eles. O fogo se espalhou com facilidade, formando uma fogueira baixa, instável, mas suficiente para iluminar o espaço ao redor com uma luz avermelhada. Foi então que percebi que ela estava nua, era a ausência de qualquer coisa que não fosse ela mesma ali, naquele lugar.

Ela ficou de frente para a fogueira por alguns instantes, observando o fogo como se esperasse algo, e então, sem hesitar, começou a apagar as chamas com areia, jogando punhados sobre a lenha até que o fogo se extinguisse completamente. Restaram apenas brasas e carvão, ainda quentes, brilhando sob a superfície escurecida.

Com um graveto, ela começou a mexer na fogueira apagada, separando pedaços de carvão e puxando-os para fora. Em seguida, rolava esses pedaços na areia ao lado, resfriando-os com cuidado. Testava a temperatura com os dedos, sem pressa, como se soubesse exatamente o momento em que poderiam ser usados. Quando considerou adequado, pegou alguns desses pedaços e começou a riscar o próprio corpo. Primeiro as mãos, depois os braços, traçando linhas escuras sobre a pele, com movimentos firmes, mas precisos, como se aquilo tivesse um significado que eu ainda não compreendo.

Depois disso, ela caminhou até a beira do córrego, onde a areia era mais úmida, quase lama, mas ainda firme. Ajoelhou-se e sentou sobre as próprias pernas, inclinando-se levemente para frente. Com a mão esquerda, recolheu um punhado daquela areia molhada e, em seguida, juntou as duas mãos, formando uma espécie de concha. Esticou os braços completamente à frente do corpo, na altura dos ombros, e permaneceu assim.

O tempo ali pareceu mais lento. Ela ficou nessa posição por vários minutos, sem se mover, até que o peso se tornasse evidente. Era possível perceber o esforço, mesmo à distância. Quando já não conseguia mais sustentar, reuniu toda a areia na mão direita e, com cuidado, a devolveu ao chão. Em seguida, permaneceu ajoelhada por mais um momento, imóvel, como se estivesse em algum tipo de contemplação silenciosa.

Depois disso, levantou-se e entrou no córrego. A água subia lentamente pelo corpo, e ela não demonstrava pressa. Avançou até estar completamente submersa. Por alguns segundos, não havia nada ali além da paisagem — a água, as pedras, o som constante do fluxo. Então, de forma súbita, ela emergiu, puxando o ar com força, jogando os cabelos para trás em um movimento rápido. Saiu da água e voltou para perto da fogueira apagada, posicionando-se de frente para o local onde ainda restavam brasas. Ficou ali parada por tempo suficiente para que o corpo secasse completamente, aquecido pelo calor residual quase imperceptível.

E então, sem olhar para trás, entrou novamente na mata e desapareceu.

No mesmo instante, tudo mudou outra vez. Estávamos de volta ao meu quarto, deitado, paralisado, vendo o teto como antes, sentindo o peso do corpo imóvel.

Charlotte disse que eu deveria anotar o que vi, mas não como relato desta vez. Disse que eu deveria registrar como uma receita, exatamente como foi ensinado a ela por Harriet, e que foi esse o ritual que a tornou parte do grupo que ela descreveu anteriormente.

Estou escrevendo da forma mais fiel possível ao que foi dito.


O Ritual

Deve ser realizado na natureza, a pelo menos duzentos metros de qualquer objeto artificial, incluindo roupas ou ornamentos. O local precisa ter água corrente e solo que possa ser recolhido com as mãos.

Acenda uma fogueira e aguarde até que se forme carvão. Apague completamente o fogo e separe alguns pedaços de carvão ainda utilizáveis. Com esse carvão, desenhe livremente pelo próprio corpo, principalmente nas mãos e nos braços.

No dorso da mão esquerda, escreva “receba”. No dorso da mão direita, escreva “doe”.

Dirija-se a uma área de solo úmido, preferencialmente próximo à água corrente. Com a mão esquerda, recolha uma porção de terra ou areia e lembre-se de que você veio do solo e que a sua vida foi dada pela natureza. Em seguida, junte as duas mãos em forma de concha, mantendo o solo entre elas, e estenda os braços à frente do corpo, na altura dos ombros. Permaneça assim pelo maior tempo possível, sentindo o peso, reconhecendo o esforço de sustentar aquilo que representa a própria vida.

Quando não for mais possível sustentar os braços, transfira o solo para a mão direita e devolva-o ao chão com cuidado, lembrando que um dia você retornará à natureza.

Após isso, permaneça em silêncio por um momento e contemple o ambiente ao redor. A partir desse ponto, estabeleça a intenção de que, dali em diante, tudo o que for recebido será acolhido com a mão esquerda, ou não dominante, com gentileza, enquanto a mão dominante será utilizada para doar ao mundo.

Tudo o que for adquirido como alimento para si deve ser igualmente adquirido e doado a outro, ou ter o mesmo valor convertido em doação. Caso possua uma moradia própria, deve abrigar ao menos uma pessoa sem custo, sempre que possível.

Sempre que se sentir sem energia ou sem sorte, deve-se retornar à natureza, mantendo a mesma distância de qualquer objeto artificial, e submergir completamente o corpo em água corrente.

Se essas instruções forem seguidas, a sorte passa a acompanhar o praticante de forma consistente, como se a própria natureza operasse a seu favor.


Ela não explicou mais nada depois disso, apenas disse para eu acordar e escrever. E aqui estou, ainda não sei o que pensar sobre isso, mas, diferente das outras noites, não há sensação de ameaça imediata. Apenas a impressão de que fui ensinado algo que não deveria ser ignorado. Não sei se vou fazer esse ritual.