Capítulo 04
Ampulheta Afiada
Winnipeg - 14 de Maio, 1998. 3:27AM
Hey D, meu diario companhaeiro, Está ficando frequente nosso encontro por volta de três horas da manhã, hein? É hora, vou te relatar tudo que vi agora há pouco antes de eu despertar. Vamos fazer isso enquanto está quase tudo fresco na minha memória, antes que eu adormeça e esqueça quase tudo pela manhã.
Era uma cabana simples, iluminada com vela, com cheiro de lenha queimada e ervas. Chamava a atenção as várias mandalas penduradas, que balançavam levemente com o vento e criavam sombras dançantes nas paredes rabiscadas com carvão. Era aquela escrita familiar que estou aprendendo a ler e decifrar, mas que ainda não consigo ler com fluidez, portanto não posso dizer o que estava escrito nas paredes. Também sei que as mandalas têm significado, mas ainda não estou fluente ao ponto de lembrar, sem falar o quanto é difícil ler dentro de um sonho iluminado com luz de vela e ainda conseguir lembrar ao acordar.
No entanto, em uma cama pequena no canto da cabana, estava ela, deitada, paralisada, como quem não se movesse para evitar a dor. Algumas ataduras quase escondiam a pele chamuscada, eram queimaduras vermelhas com bordas escuras como carvão. Parecia moribunda, mas os olhos brilhavam entreabertos, de olhar fixo e distante rumo a uma das velas.
Bela e triste, como ela se apresentou a mim outra noite, mas agora Charlotte não intimidava ou assustava, e hoje era ela que estava paralisada, e eu que a observava imóvel. Eu era o fantasma, observador silencioso que a essa hora já notava com muita lucidez que eu estava sonhando, e que esse sonho se tratava de uma memória dela. Fiquei atento e assisti a ela ali, tão paralisada quanto eu estive outrora, tal como nas madrugadas que ela me quis assim, preso em meu próprio corpo, mas vigilante vendo-a perambular pelo quarto, ou sentada na cama enquanto falava, passando as unhas entre meus cabelos, eu vendo tudo, mesmo com os meus olhos fechados e o corpo imóvel como rocha.
Após ouvir o som lento de chinelo se arrastando pelo chão de madeira da cabana, entrou pelo quarto uma senhora bem idosa, de cabelos longos soltos, grisalhos e com um pequeno ornamento de madeira preso, tinha um semblante sereno e cansado, mas com um sorriso irônico de canto de boca. Ela exalava cheiro de fumaça e passou por mim sem me notar, o que me fez ter a certeza de que eu era mesmo um fantasma vendo uma memória de Charlotte em algum momento do século XVI ou XVII, de acordo com as roupas da idosa.
Então a senhora se aproximou de Charlotte, e com um gesto lento, sem parecer intencional, chutou levemente o pé da cama. "Não quero incomodar seu sono de quatro dias, minha jovem, mas já está na hora de sair dessa cama", disse a senhora, com postura firme e apressada, enquanto puxava o cobertor de lã.
Charlotte se sentou na cama com um movimento lento, fingindo não sentir dor, porem os dentes estavam cerrados. E assim que a senhora se dispôs a ajudá-la a levantar, Charlotte a abraçou com força, como se quisesse abraçar a vida, e disse com a voz embargada, "Você me tirou das chamas, me arrastou para longe da fogueira, me escondeu da Inquisição aqui na sua casa! Sempre serei grata! E juro, por tudo que não sou uma bruxa... mas, a quem devo ser grata? Qual é o seu nome mesmo, minha senhora?", perguntou Charlotte tentando reestabelecer a calma.
"Harriet é meu nome, mas você ainda deve estar delirando, minha jovem. As chamas primeiro queimaram as cordas que te prendiam, e depois você caiu desmaiada dentro da minha carroça de feno sem que ninguém notasse. Achei que isso poderia ser um sinal e resolvi pagar um pouco do meu débito com o universo e te trazer para minha cabana. Você estava quase morta, mas certamente teve muita sorte para estar de pé aqui agora. Mas me diga, o que fez você parar naquela fogueira?", perguntou Harriet, afim de acordar Charlotte de vez.
Subitamente, Charlotte se encheu de raiva. Foi nítida a transformação de sua expressão, instantânea mudança em seu olhar e franzir de testa, como se por fim despertasse, recobrasse toda a consciência e lembrasse o motivo pelo qual foi quase queimada viva. E ainda com dentes cerrados, dessa vez pelo ódio, mas sem lembrar da dor agora amortecida pela raiva, ela disse, "Eu vou matar aquele desgracado, aquele verme asqueroso maldito! Sei que em doze dias ele estará só, descarregando sua carroça imunda no beco do fundo da sua loja de antiguidades. Vou furá-lo com um punhal até que meu braço canse, então trocarei de braço para furá-lo até que fique irreconhecível e depois vou queimar a loja com ele dentro!"
Harriet sorriu com deboche e falou, "Ah, minha jovem, parece um plano fácil de executar vindo assim da sua fala em ira, mas eu conheço bem esse homem, e tenho certeza que ele terá o que merece se você for paciente e seguir as instruções dessa velha feiticeira."
Charlotte olhou surpresa e com medo para aquela senhora e a questionou, "Bruxa? Você é uma bruxa?". Harriet sorriu e respondeu, "Sim, minha jovem, eu prefiro ser chamada de maga ou feiticeira, mas bruxa me serve se um dia eu for condenada à fogueira como você", disse Harriet em tom de brincadeira, e continuou, "Não precisa ter medo, não vou fazer churrasco de você e vou te ajudar na sua vingança. Em dois dias, quando estiver recuperada, você vai até a loja de antiguidades dele, lhe asseguro que ele não vai te reconhecer. Você vai oferecer a ele uma ampuleta de vidro por um preço muito baixo e ele vai aceitar. É uma ampuleta especial, eu mesma fiz. Parece uma ampulheta comum, mas com alguns pequenos detalhes", disse Harriet enquanto pegava a ampulheta de dentro de uma caixa de madeira, e continuou, "Veja só, tem uma agulha afiada em cima e a metade de cima do vidro é preta, o que impossibilita ver quanta areia resta. Você vai dizer a ele que quem comprar a ampulheta e tiver coragem de espetar o dedo na agulha, será revelado a ele, no vidro escuro, quanto tempo ele terá até o fim da vida, mas que isso o custará cinco dias de vida".
Charlotte olhou a ampulheta com curiosidade, e Harriet completou, "Estou certa de que aquele homem ambicioso vai comprar a ampulheta, vai querer espetar o dedo na agulha e morrerá em poucos dias". Charlotte olhou desconfiada para Harriet e perguntou, "Mas e se ele me reconhecer? Não comprar? Se não tiver coragem de testar? São muitas possibilidades de dar errado, como pode confiar tanto nesse plano e nessa ampulheta afiada? É melhor daqui a dez dias eu apunhalar ele até a morte no mesmo beco escuro que ele me estuprou! No mesmo lugar que me incriminou como bruxa ao ser pego em flagrante por um boêmio que passava por ali! Mesmo beco nojento em que fui levada para a cela esperar para ser queimada viva!"
Harriet, com firmeza, retrucou, "Minha jovem, confio nesse plano com a mesma certeza que eu tive de que as chamas queimariam primeiro as cordas que te prendiam e que o vento te empurraria para dentro da minha carroça de feno no dia da execução de sua sentença."
Nesse momento, ficou claro para mim o que Charlotte tentou me explicar em alguma outra paralisia do sono, em um tempo que eu não tinha você, D. Quando ela falou que bruxas não levitam ou arremessam objetos com a mente, que o único poder que elas têm é o de mudar a realidade manipulando as probabilidades, portanto qualquer efeito de sua magia pode ser explicado dentro da realidade concreta, mas que sucessão de eventos improváveis pode indicar a presença de bruxaria. De alguma forma, Harriet manipulou a remota possibilidade de Charlotte sair com vida daquela fogueira, e agora estava manipulando as probabilidades de Charlotte conseguir sua vingança saindo ilesa.
Enquanto eu pensava nisso, fui transportado para a loja de antiguidades, presumo dois dias depois, onde vi Charlotte entrando pela porta da frente com a ampulheta na mão, e o homem estava lá, sozinho, sentado atrás do balcão, com um olhar gentil, típico de vendedor, por cima dos óculos. Charlotte aparentemente estava totalmente recuperada, usava um vestido preto longo, porém simples.
"A que devo a honra da visita de uma jovem tão bem apessoada e não acompanhada de um cavalheiro?", perguntou o homem com um sorriso de predador que reconhece carne nova, claramente não a reconhecendo. Charlotte sorriu de volta, aliviada por não ser reconhecida, inabalável disse, "Trouxe um item mágico para te vender, senhor. É uma ampulheta especial, que quando fiquei viuva encontrei nas coisas do meu falecido marido. Acompanha esse folheto com o modo de uso. Me parece que isso revela o tempo de vida que resta a quem tiver coragem suficiente de espetar o dedo na agulha ao custo de cinco dias de vida. Mas acredito que seja uma bobagem, crendice, não é mesmo? Por isso estou disposta a vender por um preço bem baixo, apenas para que o nobre senhor exerça sua generosidade ajudando uma jovem viúva com algumas moedas." "Crendisse claro!", disse o homem, "Me parece que é uma ampulheta comum modificada, mas que infelizmente não vale nada, pois não pode ser usada para medir o tempo. Mas não posso negar ajuda a uma jovem viúva, e se me permite, vou testar essa ampulheta e provar para você que não há nada a temer sobre essas crendices", afirmou o homem, enquanto jogava a quantidade de moedas que só se dá como esmola sobre o balcão.
Charlotte recolheu as moedas enquanto torcia para que ele espetasse o dedo na agulha. Olho no olho, Charlotte o desafiava ao passo que duvidava que o plano de uma velha da floresta poderia funcionar. Os segundos de silêncio se arrastavam enquanto o homem hesitava e parecia desistir de espetar o dedo na agulha. Ela estava com seu punhal escondido no seu vestido e estava pronta para tentar acabar com aquilo e arcar com as consequências de sua vingança. Mas Charlotte foi paciente e o desafiava com o olhar, até que ele finalmente pegou a ampulheta, olhou para ela com um sorriso de deboche e espetou o dedo na agulha.
Uma pequena gota de sangue na ponta de seu dedo indicador e o homem provou sua coragem e virilidade ao espetar seu dedo na agulha, e Charlotte viu o vidro escuro revelar o tempo que restava para aquele homem. Cinco era o número que aparecia no vidro, e Charlotte sorriu ao ver o homem sorrir de volta com pompa de aventureiro, sem perceber que estava sendo envenenado.
Em um piscar de olhos, eu já não estava na loja, me vi de volta ao presente, em meu quarto. Agora era eu imóvel na minha cama, em terror e agonia, preso no meu corpo que dormia profundamente enquanto eu lucidamente a via gargalhando em meu quarto, vendo-a perambular, mesmo com meus olhos fechados.
Pelo que sei, o homem morreu em exatos 5 dias, adoecido e sem ele ou médico nenhum entender a causa do seu mal. Pelo menos é o que Charlotte me contou às gargalhadas enquanto eu estava paralisado em minha cama, "Ele já estava morto! O plano da velha Harriet não tinha como falhar!", disse Charlotte, gargalhando de satisfação, ao pé da minha cama, e continuou, "Contando daquele dia na loja, certamente eu o mataria em dez dias com o meu punhal, mas ele morreu antes. Dez menos cinco? Cinco! Hahaha! Cinco! Hahaha! O nome dele não interessa, este já foi esquecido e jamais retornará à história! Hahaha! Dez menos cinco!". E com olha fixo e rosto bem perto do meu, Charlotte em tom de despedida disse, "Agora acorde e anote tudo que viu. Se te indagarem, diga que tudo não passa de ficção, diga que eu sou uma personagem de sua imaginação, pois não sabemos quão breve será a próxima Inquisição".
Sutilmente, ela chutou o pé da minha cama, o que me fez acordar de repente com uma sensação de queda acompanhada de um frio na barriga. Finalmente despertei e estou livre para me mover e escrever tudo que vi, antes que eu adormeça novamente e esqueça.
Bom dia, D! Pois o céu já está clareando, apesar de que eu ainda não vejo o sol no horizonte. Até a próxima visita de Charlotte.
V.