Capítulo 03
Posso falar
Winnipeg 13 de Maio, 1998 — 3:08AM
D,
Estou escrevendo imediatamente após acordar, como fui instruído, enquanto a memória ainda está fresca o suficiente para não escapar por completo ao longo da manhã. Ainda sinto o corpo pesado, mas desta vez não houve dor, e isso por si só já muda tudo. Hoje foi diferente. Ela se apresentou.
Disse que se chama Charlotte e falou comigo de forma calma, quase cuidadosa, completamente diferente das últimas noites. Pediu desculpas pelos “exageros”, como ela mesma descreveu, e explicou que precisava garantir que eu começaria a escrever. Que agora não será mais necessário me forçar daquela maneira. Não sei se acredito nela, mas o fato é que, desta vez, não houve tortura — apenas a paralisia e a presença dela no quarto.
Eu estava novamente imóvel, deitado como sempre, consciente de onde estava e, ainda assim, vendo tudo mesmo com os olhos fechados. O cheiro de fumaça misturado com ervas continuava presente, porém mais suave, menos invasivo. Diferente das outras noites, ela não estava atrás de mim nem fora do meu alcance visual; estava sentada na beira da cama. Eu não conseguia ver seu rosto diretamente, mas sabia exatamente onde ela estava. Foi então que ouvi sua voz com clareza, próxima, estável, sem pressa, dizendo apenas que agora poderíamos começar.
Charlotte disse que já esteve entre os vivos há muitos séculos, e usou essa expressão de forma bastante específica, como se fizesse questão de separar aquele tempo do que ela é agora. Comentou que caminhou pelo mundo durante o período que hoje chamamos de inquisição, mas falou disso sem dramatização, sem qualquer peso emocional evidente, como alguém que descreve uma época comum da própria vida. Em seguida, explicou que pode fazer duas coisas comigo durante esses estados em que me encontro paralisado: pode me levar para vagar com ela no que chamou de “mundo espiritual”, que segundo ela não é exatamente outro mundo, mas apenas uma camada diferente deste mesmo, ou pode me mostrar o passado através das memórias dela. Disse também, de forma direta, que o que estou vivenciando não são sonhos, e que eu preciso parar de tratar essas experiências como se fossem produto da minha mente.
A partir daí, ela passou a falar de algo maior, como se estivesse introduzindo um assunto que eu ainda não compreendo completamente. Disse que existiram, muito antes do período que conhecemos, povos cuja relação com a natureza não era de domínio nem de exploração, mas de integração plena. Segundo ela, essa forma de relação permitia o que hoje chamaríamos de poder, embora tenha deixado claro várias vezes que não se tratava de algo sobrenatural. O que existia, de acordo com Charlotte, era compreensão — uma compreensão profunda de padrões naturais, de ciclos, de repetição e variação, algo que permitia a essas pessoas influenciar eventos improváveis sem nunca violar as leis físicas. Ela foi enfática ao dizer que nada do que é considerado impossível realmente acontecia. Ninguém voava, ninguém fazia objetos levitarem, nada disso. O que havia era outra coisa, algo que ela definiu como manipulação de probabilidades.
Segundo ela, ao entender profundamente como o mundo se comporta, essas pessoas conseguiam aumentar de forma consistente a chance de eventos raros acontecerem. Não criavam o impossível, mas tornavam o improvável frequente o suficiente para deixar de parecer acaso. Falou de acertos repetidos em jogos de sorte, de decisões que invariavelmente levavam ao melhor resultado possível, de situações perigosas das quais alguém escapava sucessivamente contra todas as expectativas. Disse que esse conjunto de ocorrências improváveis, quando se repetia com consistência, era o que, mais tarde, passou a ser chamado de bruxaria. E que sempre foi isso, nada além disso.
Ela ampliou essa ideia dizendo que a própria existência da vida dependeu de cadeias extremamente improváveis de eventos, e que durante muito tempo alguns grupos aprenderam a operar dentro dessa margem do improvável, explorando essa camada da realidade de forma prática. No entanto, segundo Charlotte, esse conhecimento foi sendo perdido ou deliberadamente apagado ao longo do tempo. Ela mencionou livros queimados, histórias destruídas e povos inteiros reduzidos a versões distorcidas de si mesmos, como se a memória coletiva tivesse sido reescrita. Em determinado momento, afirmou com bastante firmeza que as chamadas bruxas nunca foram o lado mau da história, e que a maior parte do que sabemos hoje foi registrada por aqueles que tinham interesse em eliminar qualquer forma de conhecimento que não pudesse ser controlada. Descreveu esse período como decadente, dominado pelo medo e por estruturas religiosas de poder e centralizadas, onde qualquer coisa diferente era tratada como ameaça. Disse também que o que chamamos de idade das trevas não foi apenas um tempo de atraso, mas de supressão ativa.
Em algum momento, sem que eu saiba exatamente como, consegui direcionar uma pergunta a ela. Não movi a boca, mas houve som, e ela respondeu imediatamente. Perguntei sobre as tatuagens em suas mãos. Ela então levantou ambas, e desta vez consegui vê-las com mais clareza. Os símbolos circulares estavam ali, organizados como mandalas. Charlotte explicou que uma das mãos representa “GET” e a outra “TAKE”, palavras organizadas em formato circular por meio de um alfabeto próprio. Disse que esse sistema de escrita foi desenvolvido para ser feito com elementos simples da natureza, como galhos ou riscos no chão, sempre com linhas retas, sem depender de ferramentas elaboradas. Segundo ela, as tatuagens marcam o dia do ritual de iniciação dela, e que em algum momento vai me mostrar esse evento, levando-me diretamente para dentro da memória.
Logo depois dessa explicação, ela se levantou e começou a se mover pelo quarto. Eu podia ouvir o som leve de algo sendo arrastado pelo chão, e quando percebi, vi que ela organizava pequenos galhos finos sobre o piso, como se estivesse desenhando. Aos poucos, foi formando símbolos — um alfabeto completo, composto por combinações simples de linhas retas. Tentei memorizar o máximo que consegui. Em seguida, ela reorganizou os galhos e formou dois círculos, duas mandalas distintas, semelhantes às que carrega nas mãos.
Durante esse processo, havia um som constante ao fundo, uma música baixa e contínua que parecia acompanhar seus movimentos. Perguntei sobre isso, e ela respondeu que a música que estamos acostumados a ouvir hoje está levemente desafinada em relação a padrões naturais. Disse que o que eu estava ouvindo era baseado em uma escala pura, estruturada a partir de uma frequência fundamental de 8Hz, com nove notas por oitava. Fiz um esforço para registrar mentalmente as notas que ela mencionou: oitava, segunda, terça, undécima, quinta justa, terça estendida, tridécima, sétima harmônica e sétima maior. Segundo Charlotte, essa estrutura também faz parte do conhecimento que se perdeu, e está diretamente ligada à forma como esses povos interagiam com o mundo.
Antes de encerrar, ela disse que em uma próxima oportunidade vai me mostrar um exemplo completo de como tudo isso funcionava na prática, através de um episódio da própria vida — o momento em que se tornou o que chamou de feiticeira. Disse que é assim que eu vou entender de fato, não apenas ouvindo explicações.
Por fim, ela voltou a falar sobre este diário, sobre você, D. Disse que esse registro é importante, que através dele esse conhecimento pode ser reorganizado, reconstruído e, eventualmente, retornar ao mundo. Não explicou exatamente como, mas falou como se isso fosse inevitável. Antes de desaparecer, fez apenas uma recomendação, em um tom mais sério do que em todo o resto da conversa: disse que, caso alguém questione a veracidade do que estou escrevendo, eu devo dizer que tudo não passa de ficção. Acrescentou que nunca sabemos quando será a próxima inquisição.
Logo depois disso, senti novamente o tranco, a queda e o frio no estômago. Acordei de forma abrupta, sentado na cama, com a mesma sensação de sempre, mas desta vez com a mente muito mais clara. A caneta estava ao meu lado, assim como o caderno, exatamente onde deixei antes de dormir. E agora estou aqui, registrando tudo o que consegui lembrar, antes que isso se perca.
Ainda não sei se quero que ela volte.
Mas tenho a impressão de que isso já não depende de mim.
V.