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Vini Kran

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Capítulo 02

Nota de atraso

Winnipeg 12 de Maio, 1998 — 3:08AM

Finalmente comecei a escrever este diário. Ao comprar este pequeno caderno com folhas em branco, pensei que devo estar ficando louco. É que mal posso acreditar no que vou descrever anotando aqui. Sobre o que experienciei, não sei se foi efeito das noites mal dormidas, ilusões noturnas, ou a possibilidade de o subconsciente ter criado, de forma realista, outra realidade enquanto durmo. As experiências noturnas a seguir foram mais reais do que a minha própria realidade enquanto acordado, o que me faz pensar que minha mente pode criar outra realidade durante o sono, que estou enlouquecendo ou que algo grande está prestes a acontecer.

Ultimamente, por cerca de um mês inteiro, eu parei de sonhar. Até que, nas últimas noites, começaram as paralisias do sono, sempre por volta das duas da manhã. Vindo de um sono profundo, eu despertava com a mente consciente, sabia exatamente onde estava, mas meu corpo permanecia completamente paralisado. Eu me sentia preso dentro do meu próprio corpo. Tentava mover a ponta dos dedos dos pés ou qualquer outra parte, sem sucesso. Por fim, tentava gritar, também sem conseguir. Depois de um longo período de agonia, sem motivo aparente, subitamente, em um tranco acompanhado de uma sensação de queda e frio na barriga, eu recobrava os movimentos.

Depois do tranco, com a boca seca e o coração acelerado, eu me sentava na cama enquanto tentava me acalmar. Pensava em buscar água, mas sempre com a sensação de estar sendo observado, enquanto olhava para as paredes vazias do meu cubículo solitário. Não sei o que é pior: a solidão que sinto durante o dia ou o terror de parecer estar acompanhado por algum tipo de criatura invisível durante as madrugadas de paralisia.

A cada nova madrugada ficava pior. Além de o tempo paralisado se prolongar, novos elementos se somavam. Em uma madrugada, senti cheiro de fumaça com ervas. Na seguinte, ouvi passos ao redor da minha cama e uma respiração próxima ao meu ouvido. Em outra, eu conseguia ver claramente os arredores do quarto, mesmo estando paralisado e com os olhos fechados. Tudo era aterrorizante, mas o pior era a presença — a sensação de alguém ali. Agora com cheiro, som de respiração ofegante e o ranger de tecido se movendo, como se estivesse muito próximo de mim. Ainda assim, essa presença parecia sempre posicionada em um ângulo que eu não podia ver. E, mesmo que pudesse me mover, não sei se teria coragem de olhar.

Em uma dessas noites mais recentes, eu dormia de lado, encostado em um travesseiro alto. Quando a paralisia começou, com todos aqueles elementos se repetindo, senti dedos frios, finos e com unhas longas passando pelos meus cabelos, como se me acariciassem enquanto os penteavam para trás. Eu ouvia claramente o som das unhas deslizando pelos fios, em movimentos que por vezes quase causavam dor. O cheiro de fumaça estava mais forte. Foi então que percebi que, pela posição da mão que passava pela minha cabeça, eu não estava apoiado no travesseiro, mas no colo dela.

Era tudo o que eu conseguia ver naquela posição: pernas longas cobertas por uma saia preta bordada, que bloqueavam parte da visão do meu quarto ao fundo.

Era o tecido das roupas dela que exalava o cheiro de fumaça e ervas.

Continuava impossível me mover, por mais que eu tentasse ver quem era aquela mulher. Seria um fantasma? Ou uma ilusão criada pela minha própria mente durante a paralisia do sono?

Descobri algo na madrugada seguinte.

Tudo se repetia enquanto, mais uma vez, eu me via paralisado. O cheiro, a mão passando pelo meu cabelo, a visão do vestido e do quarto ao fundo. Foi então que, pela primeira vez, ouvi a voz dela:

A partir de amanhã, você vai deixar uma caneta e um caderno ao lado da cama antes de dormir, pois eu vou voltar para nos encontrarmos. Vou te contar algumas coisas enquanto te mantenho assim, quieto, imóvel e atento. E, quando eu te liberar para o despertar, quero que, com a memória ainda fresca, assim que abrir os olhos, anote tudo o que conseguir lembrar do nosso encontro. Por hora, tente se lembrar das minhas mãos.

Eram mãos pequenas e magras, pálidas, como se estivessem sempre frias. Porém, o que mais me chamou a atenção foram as tatuagens: uma em cada dorso das mãos. É difícil descrever os símbolos circulares, mas me pareciam místicos.

Em um solavanco, o colo com vestido negro rendado voltou a ser meu travesseiro. No entanto, a visão do quarto permanecia exatamente a mesma em todos os detalhes: as roupas mal dobradas, as manchas no piso, cada textura. Tudo idêntico ao que eu via de olhos fechados enquanto estava paralisado. Mas eu já estava acordado, sentado na cama, tentando processar o sonho hiper-realista que havia experimentado.

As noites seguintes passaram, e eu ignorei o pedido dela de preparar um caderno e uma caneta ao lado da cama antes de dormir. Talvez por não acreditar que aquilo fosse real.

Foi um erro.

Ela, real ou não, mostrou-se determinada. A cada madrugada, passou a me torturar de forma crescente. Suas unhas afiadas agora riscavam meu couro cabeludo como lâminas. O cheiro de seu vestido deixou de ser apenas fumaça e ervas, tornando-se também o de carne podre em decomposição. Comecei a ver larvas se acumulando no tecido rendado. Em outra noite, elas subiam pelo meu rosto paralisado, tentando entrar pela minha boca, nariz e ouvidos.

Ela repetia que eu deveria me preparar para anotar tudo e que, àquela altura, eu já estava atrasado.

A cada noite a tortura piorava, mas ontem ela foi longe demais. Além de repetir tudo o que já havia feito, ao final puxou meus cabelos com uma das mãos enquanto me enforcava com a outra. Eu estava paralisado, agora sem ar, sentindo as unhas cravadas no meu pescoço e na nuca. Tudo de forma lenta e fria, enquanto ela repetia que eu precisava, com urgência, manter um diário ao lado da cama para registrar cada detalhe dos nossos encontros.

Portanto, isto — esta primeira escrita em um caderno novo — é uma nota de atraso.

Peço desculpas, a qualquer que seja a razão do meu tormento, por não ter me disposto antes a manter esse simples objeto ao lado da cama. A partir de agora, ele ficará ali. Será o primeiro objeto que vou alcançar a cada despertar. Dedicarei a ele a primeira hora de cada vez que abrir os olhos, não importa o horário, seja de madrugada ou pela manhã.

Mas espero, em troca, que o terror acabe. Que a tortura cesse. E que eu possa, enfim, dormir e acordar em paz.

V.